sábado, 2 de julho de 2011

A Biologia de Transformers

"Há milhares de anos havia vida no planeta Cybertron. Mas não a vida como conhecemos hoje. Robôs inteligentes que pensavam e sentiam, e moravam nas cidades. Eles se chamavam Autobots e Decepticons".

Assim iniciava um dos desenhos mais conhecidos e saudosos da década de 80. "Transformers" é originalmente uma série de desenho animado dos anos 80, cujo sucesso existe até hoje. Prova disso é a sequência cinematográfica, um filme de ação de 2007. Dirigido por Michael Bay e na produção executiva por Steven Spielberg, o sucesso levou à continuação "Transformers: A Vingança dos Derrotados", em 2009, que
continua agora em 2011 como uma trilogia, agora sob o título "Transformers: O lado oculto da Lua".

Uma das coisas que me chamou atenção ao ver o filme foi o conceito de biologia implícito, que a principio superficialmente é uma bela ficção com um ótimo conceito de design.  Bom, isso é o que os olhos vêem a princípio. Após assistir aos extras da edição dupla me dei conta de quão interessante havia em termos de conceitos havia implícito e que os artistas que projetarm pensaram realmente em algo similar a um ser vivo da Terra.  
Como Optimus Prime, um dos robôs protagonistas fala ao se apresentar ao chegar a Terra, ele diz: somos organismos vivos cibernéticos. Vemos também no dvd extra que o conceito desses transformers sugere que eles possuem um endoesqueleto tal como criaturas terrestres como artrópodes (insetos, crustáceos etc), uma subpele. Eles chegam a Terra como um casulo, que na verdade é apenas o endoesqueleto enrolado que se abre. E para manterem seu corpo aqui devem se desfarçar, se transformando assim em um objeto terráqueo verossímil similar a estrutura da massa do seu corpo, já que uma das coisas que o filme consegue é justamente corrigir o erro do desenho em relação ao fato de que na verdade eles não fazem metamorfose, pois sua massa continua a mesma depois da transformação, de tal forma que as peças vão para outras partes do corpo. Assim, eles optam por se transformar em automóveis ou em outras máquinas.

A tecnologia deles vai além da nossa, baseada em uma espécie de processo nanomolecular. Cada molécula, cada célula é uma máquina em si. Ora se formos ver as células do nosso corpo não são tão diferente de máquinas, muito embora longe de mim aqui fazer uma comparação mecanicista cartesiana da vida, mas há uma certa lógica no fato de que muitos chamam o corpo humano de "Máquina humana". O caso é que a Teoria Geral dos Sistemas diz que um sistema é um todo integrado cujas propriedades essenciais surgem das relações entre suas partes. De fato, segundo Capra, uma propriedade que se destaca em toda a vida é a sua tendência em formar estruturas multiniveladas de sistemas dentro de sistemas. Cada um desses sistemas forma um todo com relação às suas partes, enquanto que, ao mesmo tempo, é parte de um todo maior.

A Biologia organismica, física quântica, Ecologia e cybernetica.

Segundo Fritjof Capra, o famoso físico, em seu grande livro "A Teia da Vida", diz que já na década de 20, a teoria quântica mostrou que os objetos materiais sólidos da física clássica se dissolvem, no nível subatômico, em padrões de probabilidades de semelhantes a ondas, sendo que esses padrões não representam probabilidades de coisas, mas sim probabilidades de interconexões. Em biologia A forma biológica é mais que um molde, mais do que uma configuração estática de componentes de um todo. Há um fluxo contínuo de matéria de forma que acada dia somos Re-construídos, ou transformados (transformers), embora nossa forma seja mantida. E é justamente a interação e interconexão que nos dão essas possibilidades. Segundo Aristóteles , o primeiro biólogo da tradição ocidental, a matéria tem a natureza essencial de todas as coisas, mas apenas a potencialidade. Por meio da forma (shape), essa essência torna-se real ou efetiva. O processo de auto-realização ele chama de enteléquia ou autocompletude.
Ainda segundo Capra, a chamada escola organismica explorou a concepção de organização , que viria a substituir a noção de função. Quando a genética começou a explorar a estrutura molecular dos genes eles descobriram que as características de todos os seres vivos, desde bactérias a humanos, estavam codificados em dados em seus cromossomos na mesma substância química, que utilizava os mesmos caracteres de código, como blocos de construção alterações na ordem desses blocos representavam mudanças na forma do organismo, isso claro em conjunto com uma interação com o ambiente, ou melhor, o meio com os genes.
podemos aqui fazer também um link com a cibernética. Há muito em comum entre a biologia e a cibernetica. Na concepção de Wiener um dos inspiradores da cibernética esta é a ciência do controle e da comunicação no animal e na máquina. A ideia de organização está diretamente ligado a isso. Um dos conceitos mais importantes em biologia se chama homeostase, esse conceito também é um conceito da cybernética. Assim como o conceito de Feed back o qual é aplicável em biologia, ecologia e cibernetica, bem como em outras ciencias como psicologia e fisica.
Todas as principais realizações da cibernética originaram-se de comparações entre organismos e máquinas.
Os biólogos organismicos exploravam a natureza da forma biológica enquanto os ciberneticistas o lado mental, desse último influenciou os estudos em cognição.  A chave desses dois processos está no entendimento da vida, que segundo Maturana,  descreve outro conceito importante da cibernética, a concepção de auto-organização. Maturana perguntava-se que propriedades um sistema deve ter para ser realmente chamado de vivo. Podemos fazer uma distinção nítida entre sistemas vivos e não vivos? Humberto Maturana, neurocientista chileno nos forne uma resposta dizendo que sistemas vivos são sistemas cognitivos, e a vida como um processo é um processo de cognição. Essa afirmação vale para todos os organismos vivos, com ou sem um sistema nervoso. Disso tudo se resume em autopoiese, ou criação de autonomia dos sistemas autoorganizadores. Autopoiese é a organização comum a todos os sistemas vivos.

Na concepção sistêmica a qual é diferente da cartesiana o universo evolui da desordem e direção a ordem, diferentemente da máquina, a qual pára de funcionar. Mas em Transformers não há limite entre máquina e ser vivo, pois os transformers são organismos robóticos (máquinas) vivos.

O quão distantes estamos dessa realidade? Vejam os Japoneses que sempre inventam novos robôs sempre aperfeiçoando cujo alvo é a aproximação humana. Até onde as coisas realmente nos separam? Poderemos um dia chamar robôs de seres vivos? Talvez sim. Ora, se os componentes desses robôs são matéria e nós humanos somos matéria, o que nos permite viver é justamente a organização da vida e sua cognição.

Da escola organísmica de biologia emergiu a ecologia, a qual é baseada em estudos sistêmicos. Não atoa os ecologistas comparem ecossistemas a organismos. O próprio planeta Terra é visto como um organismo (hipótese Gaia). A ecologia introduziu o conceito de rede. Martín Serrano (1978) defende que os pressupostos fundamentais para que cibernética e comunicação, cibernética e interacção humana se identificassem, resulta da visão da cibernética como ecologia, baseando-se no pilar que entre um ator humano e o seu meio exterior, a troca de mensagens é uma causa e um efeito entre a ação e a reação. (Pinuel, :39 apud Serrano, 1978)

"Mais do que os olhos podem ver"!
Transformers possui desde o início da série o slogan  "Mais do que os olhos podem ver", que sintetiza bem a beleza dos personagens, os quais vivem sob desfarce de automóveis, mas que podemos usá-lo para em analogia comparar com as idéias e conceitos de física quântica , biologia, cibernética e principalmente sobretudo a ecologia, pois perdemos nossa capacidade de perceber como a vida é integrada e cheia de conexões com tudo.

Referências:
A Teia da Vida, de Fritjof Capra. 
PINUEL , Jose Luis - Ensayo general sobre la comunicación. Barcelona: Ediciones Paidós Ibérica, S.A., 2006.






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