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domingo, 16 de setembro de 2012

Leonardo da Vinci e uma horta. O reino do céu na nossa varanda.

Uma horta é tão obra de arte quanto um quadro de Leonardo da Vinci. O agricultor, cultivador a poderá pintá-la, esculpí-la, mas sobretudo ele olha as coisas antes de serem. Ele imagina e tem seu insight pessoal, dele com Deus.

Horta é um conceito mais bonito que jardim. O jardim é uma mini engenharia construída pelo homem por interesses estéticos que muitas vezes não consideram outras coisas e acaba afastando a natureza viva que é capaz de melhorar nossa obra de arte. É um conceito europeu de dominar a natureza num sentido de fazer o que quiser e não o sentido de domínio como "cuidar", de acordo com a Bíblia.
Quando Deus Javé criou o homem o criou como artista, como um desenvolvedor de hortas, um desenvolvedor da vida como um todo (Gênesis 2.15). Diz a Bíblia que o Eterno criou o homem da própria terra. Mais especificamente, do húmus, a parte escura. não duvide até por isso que o primeiro homem tenha sido negro e sua esposa também, carne de sua carne, terra de sua terra, cor de sua cor (Gênesis 2:7). Diz ainda o Gênesis, um dos meus livros preferidos da Bíblia, que o Senhor Deus colocou o homem criado num jardim (Gênesis 2.15). Penso que uma tradução mais atual possa ser "Deus colocou o homem num Horto". Isso fica mais claro quando paramos atentos diante da ressurreição do Filho de Adão, o filho do homem, Jesus Cristo de Nazaré, o próprio Deus encarnado, narrado segundo a boa notícia nova (evangelho) de João, o qual nos informa que Maria Madalena o viu próximo ao sepulcro e o confundiu com um lavrador, pois que logo ali junto ao sepulcro havia um horto.
Assim pressupõe-se que Jesus, o ressurreto, o vivente, estava lavrando a terra, estava produzindo vida naquele pedacinho de terra que ao mesmo tempo estava tão próximo a um lugar "morto" (Sepulcro), tal como o homem Adão foi incumbido. Possivelmente extraindo disso é possível também imaginar que o primeiro culto a Deus tenha sido um simples lavrar da terra. Aliás, a palavra culto vem de cultivar, vem de cultura, e cultura é um cultivo, cultura é um culto, por isso mesmo toda arte (quando redimida, ou seja reconciliada com justiça e paz) se manifesta como um culto a Deus. vemos também que Caim foi um agricultor não muito justo. Sendo ele filho do Adão pecador e assim sendo ele mesmo Caim também pecador ofereceu uma oferta a Deus, uma pequena parte de sua horta, no entanto de uma maneira imperfeita e insincera foi inaceita pelo Deus. No decorrer da história, e em resumo, Caim frustrado mata seu irmão por conta de inveja com relação ao sacrifício e depois vai fazer uma cidade, chamada de Enoque. É bem lógico que Enoque possuia uma boa presença de agricultura, já que Caim era agricultor, conforme já mencionado. No entanto, no decorrer da história a expressão cidade foi sendo desvinculada da expressão agricultura, a qual é a arte de capturar energia e de usármos para sobrevivermos. Em contrapartida as cidades foram se transformando em locais de consumo e desperdício de energia, não produzindo nada ou quase nada de agricultura.
Cidades não são e não podem ser oposição a agricultura. E hoje nós moramos nessas Enoques. Enoques vazias de produção de alimento, que se alimentam as custas dos outros, dos outros municípios que por vezes não chegam a ser cidades ou simplesmente são "cidadezinhas do interior", como nós daqui do centro, das grandes cidades, mega Enoques chamamos essas periferias.

Cidades, Urbes, somos urbanos e nos fechamos nela cada vez mais. Fechamos nossas casas, ocupamos espaços com mais casas, de tal maneira que o verde, as hortas, a produção de alimentos foram ficando a parte da nossa vida, longe de nossas casas, e assim também por isso  custando caro, perdendo emprego, criando cadeias injustas de comercialização (leia-se Atravessadores), faltando-nos com qualidade de vida e saúde. Há pouco verde. Mas nós podemos como pessoas redimidas e reconciliadas com Deus em Cristo Jesus, o Filho da terra, o lavrador que oferece a Deus não somente sua produção, seu plantar , seu colher para Deus como também oferece seu próprio corpo como culto a Deus, nós como ele podemos oferecer um culto racional a Deus e ao mesmo tempo nos satisfazermos na estética, no produzir, no gerar vida, aproveitarmos como alimento ou até gerar economia, num sentido já maior, que é administrar casa. Em resumo, sim podemos fazer da nossa casa um lugar de plantio. Podemos cultivar e cultuar o Deus das sementes, o Deus da terra, o nosso Deus com uma pequena, mas tão bela e apreciável, agradável a Deus, horta urbana doméstica, a qual pode ser feita até mesmo num apartamento verticalmente (horta vertical), com copo, garrafa, vasos ou o que mais vier a cabeça, pois como artista somos livres para desenvolver a vida no substrato/ altar que for.

Página original: http://lannapimentel.com/tag/hortaonar legenda


Quer saber se de fato isso tem valor? Basta lermos do que é feito o Reino de Deus. O Reino de Deus não é comida nem bebida, mas é feito de justiça, paz e alegria no Espírito Santo (Rm 14,17). Aqui quebramos o paradigma do material x espiritual, por meio do paradoxo do Cristo e seu Reino, o qual compreende o todo de maneira integral e não olha a vida de maneira separada, secularizada e extraespiritualizada. Ora o Reino não é comida nem bebida, mas o fato de cultivar comida de uma maneira que representa algo que seja justo como redimir a cidade perante sua função social, edificar uma casa com valores que percebam a vida como maior que o meu eu, ter auto-estima e se alegrar por se identificar e encontrar o elo de ligação da terra com o céu, então o Reino dos céus pode estar dentro de sua casa, na sua varanda ou na sua parede, na sua cozinha, mas acima de tudo dentro de você.
Que nós possamos ver o Reino de Cristo sempre! Amém!
 


















Quem sou eu? Sou imagem e semelhança do Deus vivo. Por curiosidade, meu nome é Jorge, que segundo é um nome de origem grega cujo significado é "o que trabalha a terra" ou simplesmente " Agricultor". Moro no Rio de Janeiro e estou buscando me tornar um agricultor do Deus vivo dentro de minha casa e administrar melhor os bens da criação que o Todo Poderoso fez.
Amém!


Ps: A Igreja Presbiteriana Cristo Redentor, localizada no bairro de Sta Teresa,na Rua Áurea 68, encravada na cidade babilônica do Rio de Janeiro, com seu projeto de sustentabilidade ("1 Só Casa - Nossa Casa; Um Só Eco"), realizará dia 23/09/12, às 16h uma oficina de hortas domésticas com material reutilizável. Convidamos a todos a participarem. Uma lição que nos levará a uma vida de mais qualidade e proximidade do evangelho. Pais tragam também suas crianças. Traga uma garrafa PET para você produzir algo e participe desse momento especial de comunhão.

Naquele que aduba a vida,
Jorge Tonnera Jr.
Membro do Coletivo Igrejas Ecocidadãs
Biólogo, especialista em gestão Ambiental
Atua como Educador Ambiental em gestão de Resíduos Sólidos Urbanos


terça-feira, 28 de agosto de 2012

Em que medida você apoia a guerra?

Hoje pela manhã li um excelente texto no blog Habitat do site do Yahoo. Replico ele abaixo. Parabéns a autora Tatiana Achcar pela visão, e capacidade de compreender essa noção de produção, co-criação e socialização...isso me faz sempre pensar no mandato cultural de Deus ao homem no Genesis (Bíblia), em que o Eterno coloca o homem no jardim para desenvolver a vida como um todo. E ainda quando Jesus ressucita e o evangelho de João nos dá margem a imaginar que ele estava lavrando a terra no horto junto ao sepulcro, conforme escrevi no texto que escrevi chamado "Páscoa: a história de um relacionamento. Da libertação a identidade". , postado aqui no blog.


Em que medida você apoia a guerra?Por Tatiana Achcar | Habitat – qui, 9 de ago de 2012.. .
http://br.noticias.yahoo.com/blogs/habitat/em-que-medida-você-apoia-guerra-000316339.html#more-id
Mentes bélicas acreditam que a guerra é uma ocupação natural do homem. A agricultura também é uma ocupação natural do homem. São opostos? Agricultura industrial é um tipo de guerra, derruba floresta, rouba terra dos pobres, contamina solo, ar e água, explora trabalhadores, usa pesticidas oriundos de armas químicas das guerras mundiais. No entanto, cultivar alimentos representa um espectro de atividade humana muito maior do que a guerra e muito mais antigo do que uma ação autolegitimada pelo Estado. Ela vem antes mesmo do nascimento das cidades-estado. Cultivar alimentos pode ser a antítese da guerra, a cura para as doenças sociais, a melhora de um mundo dividido em caixinhas e fronteiras? Quando você cuida de seus tomates, você está produzindo mais que tomates? Quanto mais?

Muita gente deseja superar as guerras do nosso tempo de maneira indireta, por meio de jardins e hortas. Eles estão na frente e no centro da esperança e dos sonhos por um mundo melhor, ou um bairro melhor, ou o espaço fértil onde os dois tornam-se um. Existem ativistas e apoiadores de um novo sistema alimentar, pequenos hortelões, grandes agricultores orgânicos e um monte de gente interessada e praticante da agricultura feita nas cidades. Esses projetos urbanos querem romper com a alienação do sistema alimentar, do trabalho, da inclusão e do uso da terra, com os conflitos entre produção e consumo, prazer e trabalho, com a ação destruidora da agricultura industrial e com os problemas crescentes da escassez de comida e da perda de sementes.

Em São Paulo, um grupo de hortelões urbanos juntou a fome com a vontade de comer. Muniu-se de enxadas, pás, restos de coisas úteis (pallets, papelão), mudas e sementes e foi pro front. A missão: fazer uma horta comunitária na praça das Corujas, na Vila Beatriz, um lugar que ficou abandonado por anos e foi recuperado há pouco. Nem tão antigamente esse canto era conhecido como Fazendinha pela vocação rural que o antigo morador dava ao lugar.

A praça das Corujas é a primeira praça da cidade com uma composteira de jardim, onde folhas e galhos viram adubo para a horta. Bingo! É também uma das poucas (senão a única) praça da região que tem um córrego descoberto, coisa rara nas bandas ricas da cidade. É bom ver água corrente! A sub prefeitura de Pinheiros deu aval para a intervenção, vai oferecer mão de obra para cercar a área dos canteiros e outras cossitas más. Faz dois domingos que a turma se reúne lá para sujar mão, pé e o que for preciso. Descobrimos uma área alagada ao lado das bananeiras que vai servir para regar a horta. Bingo! Cavar buraco, acomodar a caixa d'água e cobrir com filtros foi uma das tarefas do último encontro. Logo mais haverá um reservatório de água. Ali, as aparentes dicotomias se misturam e os ideais que plantamos, cultivamos e colhemos é sem fim.

De que canteiro você tem cuidado? O que você quer cultivar? Esperança, saúde, prazer, justiça, comunidade? As hortas e jardins representam a utopia possível da nossa época, mas também são uma armadilha. Uma horta pode ser tanto o solo que você permanece para se comprometer com o mundo ou a maneira como você se retira dele. E a diferença não é sempre óbvia.
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